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250 anos

Presentes

Aniversário de Porto Alegre

Paulo Guarnieri

Paulo GuarnieriAtivista político e morador do Centro Histórico

26/04/2022 16h38Atualizado há 4 semanas
Por: Fernando Gadret
Fonte: Paulo Guarnieri
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Comemoramos neste mês os duzentos e cinquenta anos de Porto Alegre, aniversário de todos nós que convivemos nesta cidade e compartilhamos tudo aquilo, de positivo, ou de negativo, que nela acontece.

A administração pública preparou o cenário com grande esmero. A Orla do Gasômetro, a terceira etapa do Parque Marinha, o Laçador, a Praça da Matriz, o anúncio da roda-gigante no por do sol, a dragagem do Arroio Dilúvio. Tantos investimentos no embelezamento, na valorização dos espaços públicos que, por certo, nos enchem de alegria. Afinal o que distingue Porto Alegre é o convívio com os porto-alegrenses.

Ao mesmo tempo chegam anúncios de projetos de transformação de áreas degradadas da cidade, onde se destaca o Projeto Masterplan, dirigido ao quarto distrito, que incorpora também todo o bairro Floresta. A ideia é a implantação de polos de educação, saúde, hotelaria, empreendimentos criativos, e transformar aquele território subutilizado.

Confesso que afastei-me de tudo desde que parei de trabalhar no serviço público há cerca de um ano e meio, sendo que já estava afastado da direção da Associação há quase três anos. Em meio à pandemia, a minha esposa sofreu um AVC hemorrágico e comecei então a prestar dedicação exclusiva aos seus cuidados, que convalesce com sequelas de um aneurisma roto em 2009 agravadas pelo último acidente.

Vendo o cenário fabuloso anunciado pela mídia, frente ao estado de alienação no qual estou envolvido, e movido pelo meu ceticismo exacerbado, comecei a pesquisar sobre os últimos acontecimentos e tendências manifestas pela administração pública, o que me pôs de cabelo em pé. O monumental presente à cidade trazido pela Prefeitura, como aquele deixado pelos gregos aos troianos, trás dentro de si um exército de maldades, pronto para cair sem piedade, sobre aqueles que a vida colocou em maior vulnerabilidade.

Os catadores de resíduos recicláveis serão proibidos de trabalhar na única tarefa que sabem executar, herdada muitas vezes por gerações. Pessoas excluídas do mercado de trabalho e de consumo, com grande ocorrência de analfabetos e na maioria com pouca escolaridade; criaturas com vestes humildes, sem meios para o cuidado com a saúde e a estética, reconhecidas, por isso, como de má aparência. Além destes existem ainda doentes mentais, dependentes químicos e alcoólatras, que também se dedicam a estas atividades. Pessoas às quais todas as portas se fecham. A estimativa colocada por eles mesmos é de 10.000 famílias envolvidas neste trabalho com resíduos recicláveis e que estarão alijadas desta forma de geração de renda para o sustento de seus dependentes.

Sabem aonde mora a maioria destas famílias? Pelo menos a quarta parte delas reside no quarto distrito. Um povo empobrecido que habita, ao longo da rua Voluntários da Pátria e adjacências, em casas de cômodo muitas vezes insalubres, ou nas vilas irregulares localizadas nos bairros Farrapos e Humaitá, ou ainda em loteamentos populares degradados que se espalham pela região.

Ao ler e reler o projeto adotado pela Prefeitura para a transformação daquele território, eu não enxerguei estas pessoas. Não encontrei no plano de uso daqueles bairros a previsão sequer de uma atividade para elas. Conclui que o esperado é a sua expulsão daquele território. O pior de tudo é que se olharmos para o passado veremos o quarto distrito cercado pelo porto e a ferrovia e infestado de indústrias. Por ação dos governantes as pessoas que lá trabalhavam e residiam tiveram imposta a política rodoviarista de transportes de cargas, que terminou com o porto, com a ferrovia, e depois com a indústria local. Restaram os trabalhadores da ferrovia, do porto e das indústrias, primeiro sem trabalho, depois sem teto. A ocupação de vilas irregulares e a dedicação à coleta e ao manejo de recicláveis foram as alternativas de moradia e trabalho adotadas. São os descendentes destes que mais uma vez ficarão sem trabalho só que dessa vez expulsos da terra, porque não haverá lugar para eles. Criaram até um termo rebuscado para isto: gentrificação, que significa voltar a estabelecer uma condição nobre ao lugar.

Percebo perplexo que a população embasbacada frente ao fabuloso presente, desarma todas as suas defesas, possibilitando que o final trágico recaia sobre os mais humildes e necessitados. O mais irônico é que as consequências de tudo isto serão refletidas em nossas ruas e às nossas portas. Espero que de forma dramática, em pedido de socorro e auxílio, e não com atitudes desesperadas de busca dos meios de sobrevivência que foram negados.