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Languishing

Na transformação de nosso estado de espírito, os sons são as primeiras manifestações dentre as linguagens que utilizamos.

Raul Tartarotti

Raul TartarottiCrônicas Semanais

18/02/2022 15h16
Por: Fernando Gadret
Fonte: Raul Tartarotti
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Na transformação de nosso estado de espírito, os sons são as primeiras manifestações dentre as linguagens que utilizamos.
A palavra é a outra que nos fascina e atrai o olhar, onde as letras são os símbolos e objetos admirados por quem as entende.
Mugimos com super poderes, enxergamos e andamos pelas águas, e após os cinco ou sete anos de idade, as combinações se tornam muito mais complexas, nos provando que o consciente é uma falsa voz que transborda através da fala e da escrita.
Nos parece que falamos para outros universos onde existem criaturas com ultra poderes. Nossa taxa de sílabas pode chegar a 200 por minuto, parecendo satélites sem capa penetrando surdamente no reino das palavras. Falar é mais complicado que chegar na lua.
Mas já que ainda não temos outro lar pra chamar de meu planeta, nesse aqui ocorrem eventos catastróficos lá fora que nos tiram do prumo e dão chances para vivermos um entorpecimento e uma sensação de vazio.
Em alguns momentos lutamos contra a desmotivação, e o que nos preocupa é quando ela se instala, quando a apatia toma conta dos dias e perdemos força para retomar uma nova mobilização. Muitas vezes sequer temos a noção do que estamos vivendo, já que, aparentemente, tudo está bem com a saúde física/clínica, há trabalho, alimentação correta, casa e segurança. O que está ocorrendo é um novo adoecimento, e por isso, ainda há dificuldade para identificar esse fenômeno psicológico aflorado com a instalação da pandemia.
O "languishing", é o termo que denomina esse sentimento persistente de apatia.
É o mais novo transtorno de saúde mental, e aparece como um desânimo e uma sensação de carregar um peso invisível e constante, com coração apertado e respiração difícil, e como consequência esvazia a alma em um corpo que luta pra se reencontrar. Ficamos atados e não sabemos o que podemos fazer pelo amanhã, hoje.
Na semana de arte moderna em 1922 fizeram algo que chegou ao nosso hoje, romperam a métrica da poesia, quebraram tabus estéticos com alarde exibicionista e provocador. E essas rupturas marcaram a linguagem artística no século 20. A força das ideias e a insistência do desassossego, empurraram os caminhos saudáveis ao desenvolvimento das mentes, longe da agressão e regras de comportamento linear e ditatorial, abriu-se um engajamento social, e  limitaram-se as rachaduras internas e as fraturas políticas. Apesar dos males na rua, o braço do desejo em busca da felicidade, torna real a ficção e o sonho, fadados a espera da coragem pra serem arrebatados e servidos em nossas bandejas sociais.
Ser o protagonista de uma transformação solidária, necessariamente não é uma vantagem, mas participar efetivamente do evento, fortalece a todos. Se candidate a ser a onda que usurpa o medo e a pobreza de espírito, comprometa-se pra poder colher o resultado de seu esforço. Vai que você tenha sorte dessa vez.