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Artigo

Efeito Erisícton*

Em meio à pandemia do Covid-19

07/07/2020 23h09Atualizado há 4 meses
Por: Fernando Gadret
Fonte: Paulo Guarnieri
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Foto/Fracab
Foto/Fracab

Efeito Erisícton*

 

A exploração predatória dos recursos naturais e humanos, ao longo da história, levou a sociedade a produzir o excluído, uma categoria de pessoas que é rejeitada pelo mercado de trabalho e estigmatizada no mercado de consumo.

O consumismo, a globalização e a técnica, potencializaram a produção de resíduos, que hoje já começam a sufocar o planeta.

Os excluídos do mercado, descobriram, como alternativa de sobrevivência a catação e o manejo de resíduos recicláveis. Hoje, entre eles, há uma estimativa da existência de mais de oito mil pessoas em Porto Alegre, que alimentam suas famílias com o que, na prática, tiram do lixo.

Hoje, em meio à pandemia do Covid-19, essa população passa por agruras inimagináveis. Os resíduos são escassos, pois o pequeno comércio, grande produtor de resíduos, está restrito em seu funcionamento. Isto ocasiona uma queda brusca e significativa da renda dos catadores, o que objetivamente significa alimento.

Mesmo sem oferta, o preço do resíduo reciclável está em queda. E aqui cabe até um parêntese. Perceba-se que o mercado de resíduos, que é informal, possui uma mão tão “pesada”, que é capaz de subverter até mesmo a lei do mercado e fazer o preço cair, quando cai a oferta.

Quando, em fim, chega o auxílio emergencial, se sobrepõem os limites e as barreiras estruturais: o analfabetismo funcional, a impossibilidade de acesso à internet, a dificuldade em lidar com as ferramentas modernas, o documento em ordem, a burocracia, as análises infindáveis...mas a fome não espera. Já encontrei, neste meio, até mesmo pessoas com desalento em relação ao auxílio emergencial.

No seu trabalho, essas pessoas se encontram com a “espada de Dâmocles sobre as suas cabeças”. Vige a Lei Municipal que, a partir de setembro, proíbe a circulação dos veículos de tração humana, principal meio de produção dos catadores, o que aniquila com essa ocupação. Existe em tramitação na Câmara um Projeto de Lei que propõe o adiamento da proibição, mas as condições especiais de funcionamento da Casa podem dificultar a sua aprovação. Nas vezes anteriores, foi preciso lotar as galerias para obter a prorrogação. Essa luta vem de longe, dese 2016, e já passamos por isto duas vezes. A história nos ensinou que a pressão política de catadores e catadoras, no dia da votação é indispensável. Sem esta possibilidade a coisa fica difícil.

O DMLU, órgão da Prefeitura responsável por esta política pública, ao tratar do tema, afirma que não tem o papel de fazer assistência social e que o manejo de resíduos, hoje, é um negócio, onde o que interessa é gestão eficaz.

Corremos o sério risco de, ao fim da pandemia, termos uma população de 32.000 pessoas alijadas do modo de produção que lhes prove o sustento.

E a sociedade porto-alegrense dorme tranquila, sem saber que as leis e o governo, como Deméter fez com Erisícton, lhe introduz a fome nas entranhas, o que a conduzirá, inexoravelmente, a devorar a si própria.

 Paulo Guarnieri / Ativista Político

Erisícton – rei da Tessália, na Grécia antiga, que ao devastar o bosque, consagrado à Deméter, deusa de Agricultura, foi punido por esta, que lhe introduziu a fome nas entranhas que, ao fim, o fez devorar a si próprio.

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