jc
Saúde Pública

Novos tempos, velhas doenças

Sobre a nova epidemia

11/03/2020 17h09Atualizado há 7 meses
Por: Fernando Gadret
Fonte: P.Guarnieri
213

Novos tempos, velhas doenças

É recorrente, nos últimos tempos, a divulgação em todas as mídias sobre a intensidade da ocorrência de epidemias virais em todo o território nacional. A Dengue, a Zika e a Chicungunha, juntas, vitimaram centenas de pessoas, chegando a atingir uma frequência de 2,7 mortes por dia. Aplicada a média, poder-se-ia supor a morte de mais de 200 pessoas somente neste ano por essas motivações.

Até a febre amarela e o sarampo retornam aos noticiários, ainda que sem informações catastróficas e sem resultar em número de mortes expressivo. Ainda assim, são epidemias praticamente erradicadas no século passado, mas que agora ressurgem no cenário nacional de forma preocupante. E trato apenas de casos autóctones.

No entanto, os números que mais me chamam a atenção foram revelados em jornais televisivos, que escuto cotidianamente entre ida e volta para casa. Eles dizem respeito a ocorrências deste ano. Centenas de mortes em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, com a mesma motivação. Só que não causadas por uma epidemia, e nem sequer por uma doença contagiosa, mas sim motivadas por fenômenos meteorológicos. Em pouco mais de um mês, na região mais desenvolvida do país, quase 200 pessoas “morreram de chuva”.

Mas todos estes acidentes letais possuem uma raiz comum: a ausência da preocupação social e ambiental dos últimos governos, pois até bem pouco tempo não havia essa trágica proporção em eventos ocasionados por acidentes naturais ou epidemias virais. E este descaso pode ser considerado uma antiga doença da política, que, por algum tempo, parecia erradicada.

Há, por trás deste descaso, o desinteresse pela proteção ambiental e pelos direitos sociais, frente a priorização da criação de facilidades para a obtenção do máximo lucro, pelos empreendedores. Nesta conta estão: a ausência da regularização e urbanização de assentamentos informais, com a necessária implantação de redes de abastecimento de água, coleta de esgoto cloacal, sistema de drenagem pluvial, coleta e tratamento de resíduos domiciliares, contenção de encostas, micro e macrodrenagem urbana, isto principalmente em regiões de periferia. Também nesta conta se encontram, nas regiões mais nobres, os problemas de adensamento excessivo, impermeabilização do solo, a canalização de córregos e cursos d’água, a privatização dos espaços públicos, assim como os efeitos da política de mobilidade orientada pelo rodoviarismo.

Projeta-se em breve a revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental em nossa cidade. Convém lembrar que esta é a lei que trata do balizamento das intervenções do empreendedorismo no território urbano, e da estruturação de políticas públicas, que podem corrigir alguns rumos equivocados do nosso desenvolvimento. Tal correção de rumo teria a capacidade de mitigar os impactos sociais e ambientais motivados pelo liberalismo econômico, aliado ao desprezo pelo interesse social e ambiental, no planejamento e na execução de políticas públicas.

O novo modelo de desenvolvimento urbano, instituído pelo Estatuto da Cidade, e ainda não aplicado na sua forma mais ampla, promove a flexibilização das normas urbanísticas e admite impacto urbano, mas exige a mitigação de impacto, contrapartidas sociais e ambientais, e outorgas onerosas, cujos recursos auferidos devem atender aos interesses social e ambiental.

Principalmente na política, não se consegue servir, ao mesmo tempo, a dois senhores: o vereador que militar, na discussão do Plano Diretor, em defesa da especulação imobiliária, em favor do lucro fácil, sem cuidado social ou ambiental projetará a possibilidade, na aplicação do Plano, de agressões ao meio ambiente e ausência de políticas para a população de baixa renda, que demanda do estado moradia digna. A situação é bem assim, absolutamente maniqueísta: quem der para um, retirará do outro. Em nossas mãos se encontra o poder maior, o controle social, que tem a capacidade de escolher entre um ou o outro lado.

Paulo Guarnieri, ativista político e morador do Centro Histórico

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.