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Cultura

Hegemonia Gauchesca

Por Tao Golin

10/09/2019 17h46Atualizado há 10 meses
Por: Fernando Gadret
Fonte: Tao Golin
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 Um dos fenômenos socioculturais mais emblemáticos do Rio Grande do Sul, com repercussão no Brasil, começou a ocorrer em 2007. Alguns representantes da área cultural e da comunicação sistematizaram as interpretações e as opiniões de dezenas de intelectuais e artistas sobre o Movimento Tradicionalista Gaúcho. As fontes foram diversas, a exemplo de livros, artigos, ensaios, entrevistas para a mídia, debates públicos e conversas pessoais. Reafirmou-se a constatação que esse universo gauchista abrange, em seu conjunto, três paradigmas formativos da historicidade sul-rio-grandense, com implicações nas relações com os platinos-estrangeiros e com o Brasil. Pode-se distingui-los na dinâmica de que o fenômeno do Tradicionalismo, um movimento criado na sociedade civil, de caráter privado, com interpretação singular sobre a formação sulina e estabelecimento de calendários de celebração do passado-presente, apossando-se de setores do Estado (redundando no civismo pilchado), implicou em embates sobre a memória e a história, a construção do hegemonismo gauchesco, com correntes fundamentalistas, e o bloqueio sobre a representação simbólica da diversidade social e cultural. No conjunto das análises, entre outros processos, ficou evidenciado que o movimento tradicionalista, para se credenciar publicamente, utilizou técnicas de invenção e construção do mito fundante, elegeu um episódio político-bélico (guerra civil de 1835-45, que glorificam como a Revolução Farroupilha) e de interesse de classe do passado (oligarquia), operando sobre ele para estabelecer paradigmas, referências axiomáticas e manipulação de identidade gentílica. Adicionaram xenofobia à manipulação do conceito de guerra de libertação colonial na fantasia de que no século XIX o Rio Grande unanimemente combateu o Império. Os tradicionalistas se colocaram no centro da operação sobre a autenticidade, assumiram os postos de guardiões de um pretenso Rio Grande tradicional, usando artifícios das construções das nações étnicas em uma região mestiça. Ou seja, o Tradicionalismo evidenciou-se como problema contemporâneo, vitorioso na celebração da identidade, construída pela rede societária de CTGs e Piquetes, com um órgão central de orientação, adestramento e controle (MTG), imposição de cartilhas de comportamento e visão sobre o passado, o lugar e o futuro de seus milhares de militantes no mundo. Para vingar, precisou supor que as suas “práticas” decorrem como sucedâneas da história. Entretanto, todas as suas “verdades” são refutadas pela historiografia, sociologia, antropologia críticas e jornalismo culto. A compreensão do núcleo estruturante da análise sobre o MTG, por considerá-lo questão da conjuntura, que se coloca como intérprete do passado, normatizador de comportamentos no presente e proposituras para o futuro, foi além da análise e se expressou no campo da práxis, com a compreensão de que o Tradicionalismo é um movimento ideológico, abrigando múltiplas correntes. E, como força político-comercialcultural que interfere na sociedade com a pretensão de formatá-la a sua visão comportamental de mundo, merecia ser considerado nesta esfera militante, que opera com interesses sociais, econômicos, políticos e culturais. Luiz Carlos Tau Golin, jornalista, doutor em História pela PUCRS, com pós-doutoramento pela Universidade de Lisboa, é professor da graduação e pós-graduação em História na Universidade de Passo Fundo, RS, Brasil. 2 O Manifesto Nesse paradigma, o núcleo falou à sociedade através do Manifesto contra o Tradicionalismo. A ela ofertou um texto de reflexão e denúncia. Refere-se a uma violação da vida republicana pelo Tradicionalismo. Portanto, diz respeito às instituições do Estado e da sociedade civil. Do ponto de vista cultural e educacional indica as implicações que a hegemonia e a influência do MTG possui nessas esferas, a sua forma seletiva, normatizadora, e excludente de elementos constitutivos da historicidade rio-grandense, além de pretender controlar a liberdade artística. Acima de tudo, o Manifesto demonstra como um movimento de interesse particular, em um viés fundamentalista pilchado, em seu limite, opera no Rio Grande do Sul, selecionando, consagrando e reconhecendo as manifestações que comungam com sua visão de memória, de cultura; e faz um alerta máximo: a destruição do patrimônio rio-grandense, da diversidade, do folclore, da tradição, pois readaptou os seus elementos em um processo sistêmico palanqueado no ícone da estância oligárquica e selecionou como monumentos tutelar senhores de escravos. Na imanência dessa cavalgadura tudo passou a ser considerado gauchesco e transformado em sua aparência. Não respeita as historicidades dos lugares e dos grupos sociais. E leva os governos a rebenque para manter suas guaiacas estufadas. Desse ponto de vista, o Manifesto condenou a militância tradicionalista para mangueirar o povo, demonstrando a insustentabilidade histórica de sua pretensão usurpadora, ao mesmo tempo em que defende um processo de inclusão na historiografia e na cultura de participação e representação republicana de todos os segmentos sociais. Com os signatários iniciais, o Manifesto foi disponibilizado na internet. Através de um link, aqueles que concordavam com suas reflexões, passaram também a assiná-lo durante algum tempo. Multiplicou-se vertiginosamente por blogs, sites e emails. Uma repercussão extraordinária! Exceto para a mídia tradicional. Nenhum jornal impresso, rádio ou televisão pautou o assunto. Enquanto isso, as redes sociais o multiplicaram, novas interpretações apareceram, milhares de acessos ao endereço http://gauchismos.blogspot.com/. A repercussão Porém, nesse processo, outro fenômeno transpareceu como uma avalanche contundente. Centenas de emails foram enviados para o endereço online disponibilizado. Neles, as pessoas justificavam porque não poderiam assinar o Manifesto. Histórias esclarecedoras e dolorosamente desumanas. Todas possuíam o mesmo nexo: a retalhação, a repressão de suas atividades profissionais e, invariavelmente, a perda de empregos e negócios, caso chancelassem publicamente o Manifesto. Professores relataram que suas “incompatibilidades” com seus educandários começaram quando simplesmente tentaram passar do adestramento de repetir, de celebrar, para a pedagogia do aprender. Especialmente em setembro, durante as euforias da Semana Farroupilha, suas formações acadêmica mermavam diante de qualquer patrão de CTG analfabeto, que de credencial possuía apenas as pilchas; prendas ignorantes e adestradas, assumiam as turmas para repetirem manualzinhos; o Tradicionalismo toma(va) os educandários, submetendo, como em uma doma, qualquer doutrina educacional, como o ápice da operação que transformou o ensino em sua invernada, como se “estudar” fosse formar manadas para mugir no mesmo eco, com a cabeça em uma só direção. Isso ainda é pouco diante do projeto educacional do MTG. Por deliberação de um dos seus congressos, forceja para ter suas próprias escolas e, inclusive, no mínimo, uma universidade. Obviamente, onde o 3 uniforme será o primeiro item das obrigatoriedades – a imposição da “pilcha gaúcha” aos alunos, afinal ela já foi adotada inclusive como traje oficial do Rio Grande. Relatos desesperadores dos funcionários públicos. Desde que o gauchismo se transformou em “pedra de toque” do democratismo popularesco, as secretarias se converteram em galpões de mão de obra, consumindo o patrimônio em eventos de celebrações particulares, de duvidosos resultados culturais, invertendo as prioridades chanceladas pelos atributos civilizatórios por repetições caducas de encantamento com o mundo latifundiário e suas profissões, convertidas em festivais que retiram suas concretudes dramáticas. Mas por que o Manifesto teve e mantém enorme repercussão? Objetivamente, sistematizou o pensamento crítico sobre o Tradicionalismo e se transformou na voz pública da cidadania de milhares de pessoas, cotidianamente reprimidas e caladas. E, mais drasticamente, submetidas e instrumentalizadas para atividades para as quais possuem reservas, representam “desvio de função”, ou, simplesmente, abominam. Consideram uma violação de sua cidadania. São vítimas da manipulação da isonomia republicana no serviço público, onde postos são ocupados privativamente pelos tradicionalistas. O talibã é no Rio Grande. O fundamentalismo tradicionalista não difere culturalmente dos demais dogmatismos. As suas correntes “profissionais”, “brigadianas” e “funcionalistas” operam no viés de um cânone excludente e de reconhecimento de iguais nos postos políticos, econômicos e culturais, cujas esferas manipulam como totalidade. Esta nesse nexo o esforço metegista de se transformar em ícone, pressionando os órgãos públicos a elegê-lo como “patrimônio imaterial” da sociedade. É a manipulação completa do conceito de público, de vida republicana, em que o “singular-particular” deseja assumir um lugar “comum” a todos. Entretanto, devido ao enfrentamento realizado pelo Manifesto, nos últimos anos, ele se transformou em fonte para estudos acadêmicos, mas também justificativa para políticas públicas republicanas, para conselhos de cultura ou simplesmente de esteio argumentativo para algum departamento municipal, zeloso na proteção do erário público, formando mesmo rústica trincheira para tentar conter as constantes razias tradicionalistas no dinheiro dos cidadãos. Passando a tarca Mas o que diz o Manifesto para se transformar em fenômeno cultural importante, com implicações nas atividades de inúmeras pessoas. Fundamentalmente estabeleceu paradigmas de princípios “em defesa de uma cultura e de uma estética correspondentes à memória e à história do Rio Grande do Sul.” Ou seja, a crítica decorre de compreensões, não trata-se de gostos aleatórios ou simpatias. Existe uma necessidade de reconhecimento do Rio Grande do Sul de que ele é uma invenção brasileira, cujas regiões, durante o período colonial, com reforço de tropas europeias e açorianas, e início do Império, mobilizaram recursos e arregimentaram contingentes militares para conquistá-lo, defendê-lo e povoá-lo. Particularmente São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas, Bahia e Pernambuco. No estilo, muitos dos adereços rio-grandenses decorrem da marinharia, o contingente estratégico que conquistou e sustentou o Rio Grande. As guerras irregulares, cantadas em verso e prosa pela massa que declara “seu amor pelo Rio Grande”, são táticas dos paulistas, que desenvolveram a combinação da cavalaria sulina com a emboscada mameluca no povoamento. O ódio gauchesco a São Paulo decorre de questões de disputa hegemônica durante a República. Pode-se entender o fenômeno historicamente, ou tratá-lo como problema psicológico, diagnosticado pelo “desejo de assassinar o pai”. 4 Já o preconceito ao Nordeste corresponde a uma estupidez, pois os nordestinos, em especial durante o século XVIII, contribuíram com sua arrecadação, provimentos, e contingentes de mar e terra para ocupar o Rio Grande. Talvez nenhuma outra tropa tenha sido mais importante estrategicamente do que a companhia de jangadeiros, que despejaram na margem meridional do canal do Rio Grande as tropas de assalto luso-brasileiras, constituídas por 800 granadeiros, infantes e artilheiros, na madrugada de 1º de abril de 1776, e depois passar os contingentes de um exército de aproximadamente 6.000 homens. A surpresa da operação com jangadas possibilitou a reconquista do território perdido pela cavalaria liderada pelos dragões em 1763. Para quem gosta de origens simbólicas, a primeira selaria oficial pertenceu a um baiano, introduzido no Continente por Silva Pais em 1737. Foi a primeira “escola” de arreios. O Rio Grande brasileiro não existiria sem o barco, juntamente com a infantaria, tendo como tropas táticas auxiliares a cavalaria. No entanto, o romantismo midiático e manipulatório colocou o rio-grandense no lombo da tropilha imaginária, dando-lhe viseiras para pensar a história. A fumaça do galpão simbólico enuviou o resto. No conjunto, a conquista colonial foi consolidada “em suas dimensões definitivas no período imperial”, com “pequenas áreas ajustadas na República Velha.” O Rio Grande como criação do Brasil determinou que os farroupilhas jamais conseguissem arregimentar além de seis mil homens. E assim mesmo na primeira fase da revolta. Massivamente, a população esteve ao lado do país que nascera recentemente, em 1822. De Porto Alegre foram desalojados por um levante popular. Foram pessoas do povo que mantiveram as barricadas. Os colonos, em particular, que se negaram à arregimentação tiveram suas casas incendiadas. Hoje, seus descendentes, como eunucos sem memória, festejam àqueles que submeteram seus antepassados à barbárie. No aspecto humano, contribuíram para a conquista, ocupação e formação da sociedade sulina indivíduos de diversos grupos sociais e étnicos. “Ao longo do tempo, o rio-grandense se formou através da inserção em uma identidade política, na composição da brasilidade e da naturalidade regionalizada e fronteiriça. E no cotidiano, através da vivência de todas as culturas, hábitos e costumes de origem, reelaborados na dinâmica da convivência. Nesse processo de formação, em diversos de seus setores, ocorreu um involucramento com a sociedade e a cultura platina, ameríndia, afro e latino-americana, além de outras contribuições com origens em diversas regiões do mundo, com diferentes níveis de contatos e entrelaçamentos, resultando em culturas de experiências históricas. A mestiçagem é um patrimônio sul-americano e particularmente sul-rio-grandense.” Portanto, o paradigma rio-grandense é o Rio Grande multicultural e multiétnico. Sua fronteira de involucramento é a mestiçagem. O autêntico é a diversidade. E não exclusivamente o padrão gauchesco. O nexo é a alteridade, o reconhecimento do outro. “Cultural e simbolicamente é uma região de representação aberta, de recriação constante, como critério indispensável às manifestações de pertencimento, motivadas pelas transformações históricas, sociológicas e culturais, típicas de uma sociedade em movimento, de transformações estruturais e antropológicas, onde ainda se opera, por exemplo, a mestiçagem dos grupos étnicos de origem. Um estado onde as fronteiras internas são evidentes.” Desse ponto de vista, são ilegítimos os movimentos, “ou iniciativa doutrinária de orientação pública ou particular que não represente a complexidade social e cultural do estado.” Que o mergulhe no arcabouço simplório do arquétipo da estância. Realidades 5 Toda cultura expressa reconhecimentos e cria realidades. Quando perde sua dimensão de representação da complexidade humana, e se converte em civismo, principalmente com as características do Tradicionalismo, transforma-se numa estupenda força alienante e escapista. “Impede e atua através de instrumentos de coerção cultural, midiático ou econômico, com o objetivo de dificultar os desenvolvimentos culturais e estéticos que tomam os indivíduos e as realidades contemporâneas como matérias de suas criações e vivências estéticas.” É nesse aspecto que o cetegismo se converteu em movimento repressor, pois “milita através do governo, da educação, da economia e da mídia, para fechar os espaços das manifestações artísticas, das representações simbólicas e das inquietações filosóficas sobre os múltiplos aspectos do Rio Grande do Sul.” É “doutrinador e usurpador do direito individual” porque “impõe modelos de comportamento fora de seu espaço privado, se auto-elegendo como arquétipo de uma moralidade para toda a sociedade.” O pastiche é a sua maior obra. Pretender-se patrimônio imaterial a sua estupenda arrogância e falta de limites, em uma imanência doentia. Tudo fica igual, ou condensado no mesmo nexo. Especialmente quando a mídia toma o Rio Grande caricatural como formato comunicativo. A população é massacrada por bordões simplórios da publicidade das grandes corporações ao mercadinho da esquina. Complexos de comunicação estruturam a internalização de suas marcas pelo rastro gauchesco. Disso advém a unanimidade caótica e alienadora sobre a compreensão da sociedade em que se vive. Quando a RBS mantém links permanentes com o chamamento de “declare seu amor pelo Rio Grande”, não resta outra alternativa, mesmo quando alguns de seus jornalistas fraturam essa lógica com matérias esclarecedoras. Quando a vida já possui sua representação definida e com o sentido da emoção esquizofrênica, o espaço da ilustração já foi contaminado. Exemplo mais gritante desse processo foi o megaespetáculo sobre a Legalidade. Ao vivo era uma coisa. Na grande mídia, outra. Foi devidamente adequado ao fundamentalismo do “orgulho gaúcho”. Potencializaram somente os recortes de possibilidade laudatória. Algo que serve a todos, em uma sociedade tão desigual, não presta à maioria. Para as massas, a memória já chegou a um nível de deturpação e celebração quase irreversível. Nessa sopa fundamentalista fermentam todos os oportunismos. No jornalístico se criou a malta dos que acenam para o grande público, fazem o elogio fácil do senso comum das massas idiotizadas a uma vida de estímulos criados de fora, alavancam suas audiências no caldo da fanfarronada tosca. No programa de “embates” Sala de Redação da Rádio Gaúcha, o jornalista David Coimbra foi transformado em espécie de carniça de campo para cachorros chimarrões pelos colegas Kenny Braga e Wianey Carlet. Qual o crime de Coimbra? Realizou a prudente observação que o patriotismo e o nacionalismo não trazem “nada de bom”. Realmente, setembro parece um mês mordido por um cachorro louco que sobreviveu agosto. Prometeram levá-lo para o Acampamento Farroupilha, onde apanharia de relho. Obviamente, nessa falta de interdições, ao gauchismo tudo é permitido, pois, supostamente, o Rio Grande estaria em perigo. Sem dúvida, tal fenômeno só se propaga porque possui seus agentes de irradiação. Para alguns gritões adoradores de caudilhos, o pago está ameaçado por uma carga castelhana (e seus agentes infiltrados) sempre que um raciocínio civilizatório se manifesta. Hegemonismo Lembro da época em o Tradicionalismo assumiu a posição de cultura de massa, fortemente palanqueado na indústria cultural – todos os seus adereços já haviam-se convertido em mercadorias e seus militantes ocupavam significativamente as grades das 6 programações das rádios e das emissoras de TV (jornal já é mais difícil: necessita-se escrever). Foi lá pelo início dos anos 1980. Com Adelmo Genro discutia o fenômeno. Considerávamos criteriosamente a necessidade de estabelecer uma categoria nominativa para o processo. Então, criamos o conceito de gauchismo. Até aquele momento, o termo em voga era gauchesco. Ao introduzirmos o sufixo ismo dávamos-lhe o caráter de movimento sociocultural, com uma imaginação de mundo, reconhecimento de um dogmatismo de conexão passado-presente-futuro, e sua dimensão militante. O conceito apareceu no meu livro A ideologia do gauchismo. Com o passar do tempo, sua natureza foi desfigurada e, pela hegemonia crescente do Tradicionalismo, depois de subtraído seu aspecto categorial de análise crítica, passou a figurar como classificativo positivado de uma organização dominante. Este é o poder de uma hegemonia: ressignificar quase tudo – conceitos, tradição, folclore, nativismo, etc. Em todo esse nexo, o princípio de “legítimo” também foi subvertido. Não potencializa mais as manifestações que tomam os rio-grandenses em suas complexidades históricas e culturais, dimensionados em seus tempos sociais. Nele, não se encontra a sociedade contemporânea em suas criações estéticas, formulações teóricas e inquietações existenciais. Por essa razão, o Manifesto se anunciou “contra todas as forças que dogmatizam, embretam, engessam, imobilizam a cultura e o saber em “expressões” canonizadas em um espaço simbólico de revigoramento e opressão a partir de um “mito fundante”, inventando um imaginário para atender interesses contemporâneos e questionáveis, geralmente identificados pela história como farsa e inexistência concreta.” E considera que todo o processo de invenção e sustentação de uma visão “mitologizada” objetiva, unicamente, atender interesses atuais; é uma forma de militância que recorre à fábula, a ressignificação de rituais, hábitos e costumes, como forma de “legitimação” de causas particulares como se fossem “tradições” coletivas. Com o Tradicionalismo, o “reino da liberdade”, o tempo livre dos indivíduos, destinado supostamente para a desalienação do “reino da necessidade” (Adorno), foi tomado por uma tropa de devaneios fundamentalistas, ou piquetes de oportunistas. A sociedade e as instâncias de governo sentem cotidianamente a sua guiada conduzindo-lhes para o abismo passadista de uma cultura inútil para se compreender a história e, em especial, o nosso tempo. Argumentos No processo de formação da hegemonia gauchesca, o Manifesto contra o Tradicionalismo destaca que a base histórica para o sucesso da sua cruzada unificadora foi a ditadura militar. Sua força não adveio de uma progressão telúrica, que se potencializou no âmbito da normalidade regional. Consubstanciou-se, fundamentalmente, através da elaboração intelectual de um grupo de ideólogos. Por isso, sua compreensão se insere num duplo sentido, o da sua historicidade como fenômeno, associada a sua construção difusa de um cânone explicativo da história do Rio Grande do Sul, no qual se incorporou arbitrariamente. É na perspectiva desse pressuposto que o Manifesto trata dos temas sobre a defesa da racionalidade na representação da história, manifestações culturais, inclusão multicultural, respeito às heranças étnicas. Os seus autores identificaram o MTG, como o principal instrumento de negação e destruição dos traços culturais e direitos fundamentais do povo rio-grandense. A mídia especulativa tornou-se conivente ao potencializar a “versão dogmática”. 7 Nesse diagnóstico, o Movimento Tradicionalista Gaúcho mantém uma cruzada unificadora. Nela “construiu uma ideia vitoriosa de rio-grandense autêntico, pilchado e tradicionalista, criando uma espécie de discriminação, como se a maioria da população tivesse uma cidadania de segunda ordem, como estrangeira no estado templário produzido fantasiosamente pela ideologia tradicionalista.” A hegemonia tradicionalista é reconhecida pela sua “capacidade de movimento ideológico cultural, com uma visão conservadora e ilusória sobre o Rio Grande, cujo sucesso se deve, em especial, à manipulação e ressignificação de patrimônios genuínos do povo, pertencentes aos seus hábitos e costumes.” Ou seja, a emotividade dos acervos populares, aliada a eficiência de rede societária, calendário de eventos, e o uso do “sistema capacitador” midiático – o grande suporte tecnológico para suas mensagens. As expressões tradicionais, muitas vezes sobreviventes em fragmentos, encontradas isoladamente em algum rincão, inclusive que jamais conheceu a pilcha gauchesca, são “restauradas” e incluídas na engrenagem metegista como se fossem expressão de uma unidade típica. Estes artefatos “arqueológicos” passam a ser consideradas relíquias que capitalizam simbolicamente seus guardiões. Sem qualquer constrangimento, Paixão Côrtes, a cada descoberta anuncia que está publicando mais uma “dança tradicional inédita”. Parece primário que aquilo que é tradicional de um povo não pode ser inédito. E, no geral, estas manifestações realmente nunca foram “tradicionais” de todo o Rio Grande. Eram expressões temporárias dos diversos locais das inúmeras correntes de povoamento. Por curioso, o que demonstra o caráter manipulador do MTG é que raramente corresponderam ao espaço social historicamente gauchesco. Vicejaram onde existia sociabilidade. Notadamente, fora do domínio latifundiário da pecuária. Como se sabe, o latifúndio produz animais, e rara cultura societária; é lugar de trabalho e produção. Somente nos filmes e nas músicas tradicionalistas (e de seus simpatizantes), seu espaço está representado como festa. Baixa densidade demográfica, pouca divisão de renda, e rara cultura constituem a herança maldita do latifúndio. De qualquer forma, o uso de referências reais “de todos” fortaleceu o Tradicionalismo. Mas “ele não é a Tradição”. Arrogou-se de “seu representante e a transformou em elemento de sua construção simbólica, distorcendo-a, manipulando-a, inserindo-a em uma rede gauchesca aculturadora, sem respeito às tradições genuinamente representativas das diversidades dos grupos sociais.” Também “não é Folclore, mas o caducou dentro de invernadas artísticas e retirou dele seus aspectos dinâmicos e pedagógicos; o seu apresilhamento ao espírito e ao sentido do pilchamento do estado praticamente destrui o Folclore do Rio Grande do Sul.” Pioneiros e massificadores Nesse particular, o fundamentalismo de massa contemporâneo do MTG diverge significativamente de alguns pioneiros. No início, Paixão Cortês, Barbosa Lessa, e outros, postulavam o lugar gauchesco na multiplicidade. Suas posições não eram tão fundamentalistas como as de Glaucus Saraiva, Nico Fagundes e a corrente brigadiana, que encamparam a missão de pilchar o Rio Grande. Bandeira que encontrou ressonância estatal durante a Ditadura Militar. Em manifestação recente, Paixão reconheceu que o Tradicionalismo “matou” o Folclore. Assim, o cancioneiro gaúcho está incompleto: “A gaita matou a viola, o fósforo matou o isqueiro; a bombacha o chiripá, e a moda (inclusive tradicionalista) o uso campeiro.” E o MTG, o folclore e a tradição, além de andar às turras com a cultura popular. 8 Nesse aspecto, o projeto tradicionalista é fundamentalista porque trabalha dissolvendo a fronteira entre o privado e o público, realizando em parte e postulando redutos privilegiados; digamos, atropelando os princípios republicanos elementares. E não só no âmbito simbólico. Mais que na Semana Farroupilha, o cotidiano demonstra o sucesso dessa militância. Pois foi considerando essa operação programática que o grupo do Manifesto explicitou a sua oposição “contra o Tradicionalismo”. Considerou-o “um movimento organizado na sociedade civil, de natureza privada, mas que desenvolveu uma hábil estratégia de ocupação dos órgãos do Estado, da Educação e de controle da programação da mídia, conseguindo produzir a ilusão de que o Tradicionalismo é oficialmente a genuína cultura e a identidade do Rio Grande do Sul.” Nas últimas décadas, a “representação tomou o lugar da realidade”. Não é difícil encontrar nessa operação argumentos conhecidíssimos da doutrina de raça comum ao nazi-fascismo e demais correntes étnicas. Em outras regiões, como Paraná, Goiás e Mato Grosso, uma de suas correntes proclama que faz parte da “etnia gaúcha”. É o dogmatismo elevado à demência. Os separatistas atuais ainda acreditam que o Sul do Brasil é constituído por uma conformação de “raças” especiais, superiores, elegidas. Possuem aversão ao brasileiro. Essa conversão do Rio Grande ao dogma tradicionalista elevado ao totalitarismo simbólico vem insistindo com a Missa Crioula. A cachaça deu lugar à água benta na guampa, mas sua liturgia não conseguia ainda arrebanhar as massas. Seu esforço de agauchar a Bíblia demonstra as esferas inimagináveis dessa imanência. Ter Deus como um patrão pilchado, o latifúndio como o paraíso, a oligarquia apostolar, e criminosos de guerra como santos, não deixa de ser assustador. Essa hegemonia, que chegou ao grau de impor procedimentos normativos, embretou o rio-grandense em uma representação simbólica pilchada, “insensível à história e à constituição multicultural do Rio Grande do Sul.” Ao passo, foi criando extenso “calendário de eventos e, através de seus prepostos, aprovou leis que reconhecem o próprio tradicionalista como modelo gentílico, apesar de ser, em verdade, um ente contemporâneo, sem enraizamento histórico e cultural”. A coleção de leis tradicionalistas, em si, contém a mais redundante ilegalidade. Seus congressos operam como “governo paralelo”, ou complementar do Rio Grande. Quando não, seus representantes acreditam estarem investidos de paladinos de uma “essência perdida”, que só existe na imaginação. Modificar o estado, pilchar tudo que lhe é diferente (além de condicionar à sua visão o gauchismo desobediente, antitradicionalista, não clubístico), e exclusivizar postos nos órgãos públicos é a sua guerra mais ofensiva à cidadania, concretamente sustentada e renovada pela arregimentação permanente. Nas suas práticas cotidianas, “a criação de instrumentos normativos usurpadores” possuem “a ambição de exercer um controle sobre a população, multiplicando a cultura da “patronagem”, com a reprodução de milhares de caudilhetes que tiranizam os grupos sociais em seu cotidiano. Tiranetes que, com sua truculência, ditam regras estéticas e limitam os espaços da arte e da cultura, lançando o preconceito estigmatizador, pejorativo e excludente, sobre formas de comportamento e manifestações artísticas inovadoras ou sobre concepções do regional, diferentes da matriz “cetegista”, mesmo quando essas manifestações surgem no interior do próprio Tradicionalismo”. Quando algum CTG se embebeda de sabedoria e amplitude estética logo é reprimido pelos ideólogos do centro metegista controlador. Seus músicos e dançarinos perdem espaços de atuação. Nesse processo, o Tradicionalismo considera fundamental a supremacia do controle de sua versão de memória, considerando-lhe como “história oficial”. Milhões de 9 reais animam suas labaredas, mantendo inativa a lenha da pesquisa, do ensino e da educação. As verbas destinadas à celebração civilhesca são ungidas pela conivência de todos os partidos políticos. Tal imanência submergiu o Rio Grande numa espantosa indigência intelectual, como se o ícone tradicionalista pudesse ser a desgraça de qualquer governo. Ao contrário dos heréticos, no Rio Grande, o que queima nos fogos tradicionalistas é o racionalismo, enquanto os devotos do pago sapateiam sobre o iluminismo. Presilha ditatorial A cavalgada foi lenta, mas agora a política está instrumentalizada, culturalmente vigora a “visão unificadora, como se a origem identitária do Rio Grande estivesse no movimento da minoria farroupilha, falseando sobre a sua natureza republicana, elencando um panteão de “heróis” latifundiários e senhores de escravos, como se fossem entes tutelares a serem venerados pelas gerações atuais e vindouras”. Como continuidade de uma suposta tradição, o Tradicionalismo sustenta sua falsa credencial de “historicidade”. Na verdade, ele se faz “passar por uma Tradição, desmentida pela própria história de sua origem, ao ser inventado através de uma bucólica reunião de estudantes secundaristas, em 1947, no colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.” Nessa perspectiva, transformou-se em força institucional e de “massa”, em cultura oficial, através dos prepostos da Ditadura Militar no Rio Grande do Sul. Tal pressuposto nega a cultura “popular”, expressão de conteúdo que dimensiona a condição histórica e a compreensão de destino de um povo. Seu conteúdo de classe e sua valentia inaugural ainda são celebrados nos manuais. Os neófitos da redenção do pago deram uma surra de relho num carroceiro que os chamou de palhaços no centro de Porto Alegre. A cena é emblemática. Desde sua origem, jamais se viu um tradicionalista enfrentar os poderosos. Como descreve o Manifesto, “em 1964, o Tradicionalismo foi incluído no projeto cultural da Ditadura Militar, pois o “Folclore”, como fenômeno que não pensa o presente, serviu de alternativa estatal à contundência do movimento nacional-popular, que colocou o povo e seus problemas reais no centro das preocupações culturais e políticas.” Em qualquer lampejo da história recente, é vergonhoso juntar eventos recorrentes do movimento popular, vitimado pela direita, com a massificação tradicionalista. O nacional-popular e demais movimentos que demonstraram suas pujanças nos anos 1950-60 foram substituídos pelo orgulho vazio e pelo revir de um passadismo especulativo. No Manifesto podemos observar esse processo: a) O Tradicionalismo usurpou [...] o lugar do Folclore, e se beneficiou do decreto do general Humberto Castelo Branco, de 1965, que criou o Dia Nacional do Folclore, e suas políticas sucedâneas. A difusão de espaços tradicionalistas no Estado e as multiplicações dos galpões crioulos nos quartéis do Exército e da Brigada Militar são fenômenos dessa aliança. b) A lei que instituiu a “Semana Farroupilha” é de dezembro de 1964, determinando que os festejos e comemorações fossem realizados através da fusão estatal e civil, pela organização de secretarias governamentais (Cultura, Desportos, Turismo, Educação, etc.) e de particulares (CTGs, mídia, comércio, etc.). c) Durante a Ditadura Militar, o Tradicionalismo foi praticamente a única “representação” com origem na sociedade civil que fez desfiles juntamente com as forças da repressão. Desse modo, a música gauchesca tradicionalista, com sua faceirice fútil, foi a trilha sonora do obscurantismo sombrio dos anos de chumbo. 10 d) Enquanto as demais esferas da cultura eram perseguidas, seus representantes censurados, presos, torturados e mortos, o Tradicionalismo engrossou os piquetes da ditadura – seus serviçais pilchados animaram as solenidades oficiais, chulearam pelos gabinetes e se responsabilizaram pelas churrasqueadas do poder. Esse processo de oficialização dos tradicionalistas resultou na “federalização” autoritária, com um centro dominador (ao estilo de um positivismo de exceção), com a fundação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1967. Autoritário, ao estilo do espírito de caserna dos donos do poder, nasceu como órgão de coordenação e representação. Enquanto o general Médici, de Bagé, era o patrão da Ditadura e responsável, juntamente com seu grupo, pelos trágicos anos de chumbo que enlutaram o Brasil na tortura, na execução, na submissão à censura, na expulsão de milhares de brasileiros para o exílio, os tradicionalistas bailavam pelos salões do poder. Paradoxalmente, enquanto muitos frequentadores de CTGs eram perseguidos ou impedidos de transitarem suas ideias políticas no âmbito de suas entidades, o Tradicionalismo oficialista atrelou o movimento ao poder, pervertendo o sentimento de milhares de pessoas que nele ingressaram motivados por autênticos sentimentos lúdicos de pertencimento e identidade fraterna. Talvez o mais contundente depoimento histórico sobre esse processo seja o de Victor José Faccioni, então secretário do governo estadual interventor, em longa entrevista ao programa de Dorotéo Fagundes, na Rádio Gaúcha. Faccioni descreveu toda a articulação com o próprio general Médici para a construção do Galpão Crioulo no Palácio Piratini, em 1971. Enquanto a carniceria dos torturadores prosseguia nos porões da ditadura, o próprio general-estancieiro participou do churrasco de inauguração. A pilcha foi o uniforme da celebração. A partir dali, os tradicionalistas tinham seu ambiente no núcleo do poder. Potencializou-se a figura militar-policial-tradicionalista… Nos CTGs, as sessões solenes das câmaras de vereadores foram silenciando os oradores de espírito democrático. Enquanto ilusoriamente os tradicionalistas combatiam o Império em arroubos ficcionais, no mundo real eram coniventes e muitos de seus membros integrantes dos aparelhos de repressão. Conforme o Manifesto, foi “através da relação de intimidade com a ditadura” que “o MTG conseguiu criar órgãos estatais de invenção, difusão e educação tradicionalista, ao mesmo tempo em que entregou, ou reservou diversos cargos “públicos”, para seus ideólogos, sob os títulos de “folclorista”, “assessor cultural”, etc. Nesse particular, “o auge do processo de colaboração entre a Ditadura e o MTG foi a instituição do IGTF – Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, em 1974, consagrando uma ação que vinha em operação desde 1954. A missão era aparentemente nobre: pesquisar e difundir o folclore e a tradição. Mas do papel para a realidade existe o interesse. Havia um objetivo perverso e não revelado. A constituição do quadro de pessoal, ao contrário da inclusão de antropólogos, historiadores da cultura, pessoas habilitadas para a tarefa (que deveriam ser selecionadas por concurso público), o critério preponderante para assumir os cargos era, antes de tudo, a condição de tradicionalista. Assim, um órgão de pesquisa, mantido pelo dinheiro público, transformou-se em mais uma mangueira gauchesca. Com o passar dos anos, os governos que tentaram arejar o IGTF, indicando dirigentes menos dogmáticos, invariavelmente, entraram em tensão com o MTG.” Diante desses aspectos, “essa rede de usurpação do público pelo privado Tradicionalismo atingiu a força de uma imanência incontrolável. Em 1985, já na redemocratização, o MTG conseguiu que a Assembleia Legislativa instituísse o Dia do Gaúcho, adotando como tipo ideal o “modelo” tradicionalista.” A doutrina metegista estava 11 consagrada. Por fim, a longa pregação de alguns de seus ideólogos já não precisava mais dos meandros da ditadura. Sua cavalgada agora era pelo consenso. Notadamente a corrente Glaucus Saraiva, que fazia campanhas contra o colonato imigrante, e usava todo o poder de Estado para “pilchar o Rio Grande”, era recompensada. Quem ler o Manual do tradicionalista vai perceber claramente a pregação encíclica dessa militância. Não suportava que o Dia do Colono fosse a data de comemoração e festejos populares. E, “em 1988, com uma manipulação jamais vista na vida republicana, o MTG se mobilizou pela aprovação da lei estadual que estabeleceu a obrigatoriedade do Ensino de Folclore; na regulamentação, a lei determinou que o IGTF exercesse a função de suporte técnico, sem capacitá-lo pedagogicamente. De fato, a relação entre as escolas e os CTGs passou a ocorrer de forma direta. Dessa maneira, o Tradicionalismo entrou no sistema educacional, transgredindo a natureza da escola republicana como lugar de estudo e saber, e não de culto e reprodução de manuais. Hoje, os alunos são adestrados pela pedagogia de aculturação e cultuação tradicionalista.” Surgiu, assim, a pedagogia do cabresto. A glória foi alcançada em 1989. A roupa tradicionalista, nominada “pilcha gaúcha”, foi convertida em traje oficial do estado do Rio Grande do Sul. A presilha desse laço alienador se fechou quando “o grande poncho tradicionalista, por derradeiro, foi tecido pela oficialização dos símbolos rio-grandenses, emanados diretamente do simulacro da república dos farroupilhas.” Triste opção simbólica dos rio-grandenses: entre a monarquia “constitucionalista” dos proprietários e o caudilhismo escravocrata! Essas são as façanhas… Serviram de modelo para apagar a história, seus traços evidentes de realidade, e sustentar um memorialismo fantasioso. Com constância não é maior que a história Grega, mas palanqueou um aramado capaz de embretar todos os oportunismos. É preciso ter um nariz sem olfato ético para não perceber o cheiro que emula do fogo do Galpão Crioulo do Palácio Piratini. Um gauchismo positivado, ao menos, deveria lembrar a memória dos que tombaram por causas humanamente mais nobres. Honrar as bombachas dos trabalhadores rurais e relativizar as pilchas – o uniforme dos ideólogos do Tradicionalismo. Compreender a emotividade das multidões, mas não sucumbir à especulação das massas e patrocinar a reificação da irracionalidade. A neosedução pela dança do Anu tem tonteado até os movimentos de esquerda. Talvez interesse a metáfora popular de que o anu ocupa o ninho dos outros… Muitas vezes, no exercício de identificálos acaba-se atingindo alguns colibris, que são verdadeiras joias, mas que estão neste entreveiro. Acima da “identidade” e, mais ainda do civismo fanfarrão pilchesco, com a devida relevância ao multiculturalismo, existem valores relativamente universais da longa e dura luta do processo civilizatório. Tempos de história e cultura Na crítica expressa pelos autores do Manifesto contra o Tradicionalismo ao MTG, obviamente, existem concepções sobre história e cultura. Consideram “indispensável para a cultura regional distinguir os fenômenos da história dos da memória”. Enquanto a História auxilia no conhecimento, a Memória, instrumentalizada no “memorialismo” consagra o status quo, nomeia os espaços com os personagens do poder, encrava monumentos de celebração. O Manifesto propõe uma metodologia que identifique “os eventos em seus tempos históricos” e se desenvolvam saberes para que “não sejam diluídos nas celebrações contemporâneas e seus interesses ideológicos, culturais e econômicos.” Através das 12 posições assumidas pelos tradicionalistas carreiristas, em especial nos órgãos de governo, nas empresas, na mídia e na publicidade, o MTG, vale relembrar, conseguiu “institucionalizar” a sua versão de cultura cívica e de lazer. A sua legitimação, “reforçada e inserida na indústria cultural pilchada, impõe uma visão da sociedade e do passado, segundo a ótica dos interesses dos indivíduos que operam socialmente na atualidade.” Isso lhe deu o domínio de uma falsa historicidade. Assim, seus membros legitimaram-se como “autênticos” e “podem especular com este inventivo selo de qualidade.” Sob o poncho do civismo tradicionalista existe uma mercadoria. A contracultura metegista implica, por sua vez, no mínimo, não consumir produtos que tenham a sua marca. No geral, este “selo” representa uma especulação sobre produtores sérios, cujos produtos, ao contrário do que pensa o Tradicionalismo é que servem de condutores e impregnam de valor o MTG. Para ser didático, uma boa erva para o mate depende do fabricante. Da certificação de laboratórios capacitados, a exemplo dos universitários. Arvorar-se de certificador de qualidade sem chancela técnica é uma falcatrua. Mas a marca não expressa a realidade e sim o domínio simbólico. O próprio MTG também é um produto poderoso. Para adquirir o fetiche de algo especial e raro, a sua atividade militante aculturadora precisou ressignificar símbolos, ícones e eventos históricos. Impregnar-se deles. Elaborou “um espaço praticado e imaginado como ethos de uma estância atemporal, empobrecendo culturalmente o Rio Grande do Sul.” O resultado é evidente: relegou etnias e grupos sociais historicamente importantes, como se fossem refugos, rebanhos sem simbologia. Resta-lhes somente, se não quiserem viver a esmo como almas penadas e “desmemoriadas”, marcarem-se com o ferro autêntico do tradicionalismo. Ungirem-se de tradicionalidade. Identidade, ideologia e dogmatismo simbólico constituem alquimia perigosa. Em especial quando o interdito é dogmático. Os escolhidos da tradição patrulham “a sociedade como um espectro opressivo.” Professam sobre aqueles que não ideologizam as pilchas uma espécie de maldição. Não se pode mensurar seus efeitos, exceto que “aqueles que se libertam de sua doutrina, depois do longo processo de adestramento, geralmente iniciado na infância, enfrentam traumas de identidade”, precisam emergir de um devaneio esquizofrênico. No campo do saber, o tempo perdido com “versões manipulatórias da história”, sem qualquer respeitabilidade pública e nas esferas minimamente eruditas, é quase irrecuperável. Ao iniciarem estudos metodologicamente criteriosos, sustentados na documentação, chocam-se diante dos fatos de que a população do Rio Grande do Sul jamais se levantou contra o Império, os farroupilhas nunca foram republicanos, exceto nas propostas confusas de uma minoria, em momento algum libertaram seus escravos. Nesse particular é necessário uma pedagogia prudente. Sem a arrogância acadêmica e erudita, com seu viés elitista, de que não se deve perder tempo com isso. Ora, a ascensão do nazismo e do fascismo, assim como diversos movimentos que se consolidaram especulando com as massas, ganharam espaço devido à postura de plateia dos intelectuais, muitos pacificamente assistindo o estilo histriônico dos bandos uniformizados e suas celebrações. Outros entraram na peleia proposta e adotaram o deboche como argumento, considerando, por se tratar de uma metodologia inspirada nos bretes e mangueiras, esse esforço de reconstrução do passado como “bostória”. Courama Entretanto, o importante não é a “bostória”, mas a sua produção de realidades, sua formação de indivíduos, seus condicionamentos públicos. Ela é tão superficial que basta 13 uma pequena faca da história para remover-lhe o couro e perceber a sua carcaça. Não é necessário exímio carneador. De certa forma, é uma irresponsabilidade intelectual não debater, propor e escrever a história com método e racionalidade processual para o público. Há o pedantismo de que ele não compreenderia. O conhecimento basilar sobre a história de uma região não depende de formulações privilegiadas de pesquisadores. Invariavelmente, internalizar uma versão fantasiosa do poder simbólico é muito mais complicado do que entender os fenômenos concretos, pois seus eventos estão referenciados pela racionalidade e a ponderação da experiência humana. Incorporar um discurso de igualdade entre patrão e peão requer talento imensurável, operação sistemática de inversão da vida real, pois qualquer trabalhador (não necessariamente somente do campo) e indivíduo do povo detém a experiência dessa inverdade. No entanto, a pretensa solidariedade da cuia do chimarrão, o churrasco virtual da igualdade, o desfile alegórico da fraternidade, eleva as massas da representação da realidade para a alienação da esfera simbólica. Como a realidade só pode ser compreendida como representação, percebe-se o dano. Mesmo que se chegasse a conclusão equivocada de que o Tradicionalismo não faz nenhum dano publicamente, ainda assim, o seu crime seria a criação de ambientes que retiram da população a possibilidade de conhecer a sua história. O memorialismo gauchesco instalou-se como um inóspito deserto “memorialista” a ser atravessado para se atingir o conhecimento. As massas sequer se propõem fazer essa travessia. Os oásis da tradição gauchesca, fortalecidos por interesses de consumo e oportunismo político, interpõem a felicidade ilusória do êxtase alienante e impedem a jornada. Quando qualquer pessoa comum conhece e repete as três mentiras lapidares do Tradicionalismo sobre a história sul-rio-grandense estamos diante de uma longa formação; ela foi “educada” para isso, já que, como é elementar, a informação não é capim que brota espontaneamente na natureza. Como afirmaram os autores do Manifesto, na vivência memorialista, na mídia de massa e nas celebrações de efemérides, o MTG “pratica a demência cronológica e estatística, impondo a deturpação de que o povo se levantou contra o Império e os imigrantes e seus descendentes também cultuaram a Revolução Farroupilha, quando, quase em sua totalidade, não estavam no RS entre 1835 e 1845. Se um dia aportaram no Brasil, isso se deve ao projeto de colonização do Império. Os projetos de colonização fundamentais, que contribuíram para a formação do Rio Grande do Sul contemporâneo, não pertenceram aos farroupilhas.” Qualquer ato contra esse reconhecimento implica na violação da memória dos pioneiros. A façanha Portanto, a herança farroupilha é uma façanha da mentira. Se considerarmos a população do Rio Grande, a esmagadora maioria não possui descendência farrapa, tomando como referências as principais cidades, vilas e índices elevados da população rural do período. Militarmente, no auge de sua ofensiva, as tropas farroupilhas jamais passaram de 6.000 homens em uma demografia oficial de cerca de 400.000 habitantes. Isso perfaz 1,5%. Por óbvio, 98,5% estavam em armas a favor do Brasil, defendendo as cidades e vilas, protegendo suas propriedades da expropriação, ou alheia à guerra civil, além daqueles que fugiam da arregimentação compulsória. As divergências entre as três correntes rebeldes mermaram qualquer projeto no já confuso programa caudilhesco de suas lideranças. Traiam-se, matavam-se, disputavam as estâncias e bens dos “legalistas”. De 1835 a 1842, no conflito preponderaram contingentes internos. O barão de Caxias chegou somente em 1842. Reorganizou o exército imperial, 14 elevando seus efetivos a aproximadamente 12.000 homens, na maioria arregimentados na própria província. Estes milhares de rio-grandenses foram simplesmente apagados do imaginário popular. Por óbvio, os antepassados do povo, que, pela inversão metegista, hoje celebram seus inimigos. Em ação contínua, Caxias embretou os farroupilhas na fronteira com o Uruguai, enquanto o Rio Grande levava vida relativamente normal. Foram minguando. Por fim, os oficiais de um exército esquálido, calculado em 1.800 indivíduos, aceitaram a anistia. Pediram perdão a Pedro II, foram indenizados, e se recolheram. O evento foi uma guerra civil e não, conforme a deturpação tradicionalista e demais correntes conservadoras (e inclusive de algum anuzinho da esquerda) de uma guerra de libertação regional. Os estadistas imperiais sempre souberam que os farroupilhas eram produto da fronteira. Através dela buscavam seu oxigênio. Primeiro com Rosas e Oribe; depois, com Rivera. De certa forma, a guerra civil no Rio Grande foi o primeiro ato da hegemonia continental brasileira, consagrada na guerra contra Rosas, em 1852, depois de remover as oposições e sustentar governos aliados no Uruguai e províncias argentinas. Assassinato... Durante anos, o ex-ministro farroupilha Domingos José de Almeida usou o seu arquivo e recolheu documentos para escrever a história do movimento de seus pares. Solicitou os relatos dos participantes dos eventos. Recolheu informes. Entretanto teve muitas dificuldades. Formou-se um grupo contrário a sua iniciativa. Estes farroupilhas “não querem que eu escreva esta história”, escreveu, mas a cavalaria urbana do Tradicionalismo pula essas páginas. Quando Almeida descobriu as mútuas traições, os acertos com os imperiais para pacificar os renitentes com uma derrota em Porongos - e, em especial, que Bento Gonçalves andava protegido com salvo-conduto dado por Caxias, depois de ter perdido o governo (obviamente traindo a “revolução”) - desistiu da empreitada em 1860. A contundência dos fatos e os seus registros históricos para a posteridade silenciaram Domingos José de Almeida. Desmoronou o herói de seu projeto: Bento Gonçalves. Em seu épico farroupilha também não tinham mais lugar membros do governo e militares. Em 3 de abril de 1860, ele escreveu ao ex-oficial farrapo Antunes Porciúncula comunicando-lhe sua decisão e temores: “Eis meu Antunes porque não querem que eu escreva essa história; e estarei livre de algum assassinato!” Ele conhecia perfeitamente o passado recente e as práticas de seus correligionários. Almeida rejeitou a missão historiográfica, mas deixou aos rio-grandenses o seu monumental acervo, o qual constitui hoje grande parte da Coleção Varela, disponível no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Somente depois de um século, sem preocupação com as veracidades da História, correspondendo a interesses contemporâneos, a militância tradicionalista pode inventar sua fantasiosa versão sob os mais torpes interesses, com o efeito lesivo de alienação das massas. Tarefa que não seria concretizada sem a colaboração da mídia e dos partidos políticos. Cada vez mais fica evidente que o Tradicionalismo é um problema conjuntural, com sua trajetória de poucas décadas. Já a guerra civil de 1835-45 é um tema da historiografia. Comprar um cavalo e mantê-lo em alguma hospedaria urbana, pilchar-se, frequentar CTG e adotar um vocabulário gauchesco nas celebrações, não habilita ninguém para produzir representações do passado como se fosse chancelada sem percorrer requisitos metodológicos. Ave pampa! 15 Como reifica o Manifesto, o corolário de força alienadora tem suas consequências: “Ajudou a instituir e alimenta em seu calendário de celebrações, nas escolas, na mídia, um panteão de heróis, na sua maioria senhores de escravos”; trabalha contra a criação de uma mentalidade ilustrada; ao transpor para o presente esses personagens como “lumes tutelares a serem adorados, impediu que se fizesse, nesse particular, um movimento cultural com a densidade dos princípios consagrados pela Revolução Burguesa.” Trata-se de um enxerto maldito, pois o MTG transformou “a população em adoradora de senhores de escravos (no geral, sem saber)”, pois as senzalas foram extirpadas do imaginário edênico dos CTGs e de suas narrativas trovadorescas sobre a história e a estância tradicional. Falta justamente a parte do mundo do trabalho nessa representação. O mais grave é que impõe uma força impeditiva da formação de capitais simbólicos nas diversas regiões do RS e onde se estabelece como expressão dominadora. Nessa perspectiva também produziu uma ilusão geográfica. Retirou as noções de territórios humanamente praticados das diferentes regiões. Criou o estereótipo pampeano. A parte simbolicamente “nobre” do Rio Grande se sobrepõe. Onde pastaram os rebanhos da oligarquia está o espaço da identidade. Secundarizou os demais. Sem reconhecer o precipício à frente, refugiam-se na calma e imutável planície imaginária. Entretanto, sem poder desconhecer uma cultura pecuária e da presença marcante de cavaleiros na metade norte do Rio Grande, onde nunca existiram os grupos gaúchos históricos, aceitou-a como algo subsidiário na figura do “gaúcho serrano”. É o predomínio da bobagem de que homem + cavalo = gaúcho. Assim também

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